
Na noite de 9 de novembro de 1889, a baía de Guanabara iluminou-se para aquela que seria a festa mais grandiosa da história monárquica das Américas: o Baile da Ilha Fiscal. Oficialmente, a recepção homenageava os oficiais do navio chileno Almirante Cochrane, fortalecendo os laços diplomáticos. Extraoficialmente, o Primeiro-Ministro, Visconde de Ouro Preto, tentava demonstrar ao país que a monarquia estava firme, forte e prestigiada, apesar da crescente pressão dos militares republicanos.
O palacete neogótico da Ilha Fiscal, que funcionava como posto alfandegário, foi transformado em um cenário de conto de fadas. Foram convidados cerca de 4.500 membros da alta sociedade, incluindo a família imperial. O luxo era obsceno para os padrões da época: foram consumidas 10 mil garrafas de cerveja, centenas de caixas de champanhe e toneladas de finas iguarias. Os convidados cruzavam o mar em barcos decorados, vestindo sedas, veludos e joias caríssimas.
Dom Pedro II, já envelhecido e debilitado pela diabetes, permaneceu poucas horas. Conta-se que, ao entrar no salão principal, o imperador tropeçou e quase caiu, sendo amparado por diplomatas. Ele teria dito, ironicamente: "O Império tropeçou, mas não caiu". A frase provou-se tragicamente errada. Enquanto as valsas ecoavam na ilha, oficiais do Exército liderados por Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca acertavam os detalhes finais do golpe no Clube Militar. Exatamente seis dias depois, em 15 de novembro, a República era proclamada. O Baile da Ilha Fiscal entrou para a história como a "última dança" de um regime que desmoronou sem que a corte sequer percebesse.


